Nov 20, 2017

Por que Paulo Francis foi abandonado

Moises Mendes*

 

Paulo Francis morreu há 20 anos, no dia 4 de fevereiro de 1997. Teve um infarto quatro meses depois de denunciar que diretores da Petrobras haviam formado “a maior quadrilha que já existiu no Brasil”, para roubar da empresa “com superfaturamentos”. A denúncia foi feita no programa de TV Manhattan Connection.
Há dois anos, o comandante do programa, o jornalista Lucas Mendes, relembrou o episódio em detalhes em texto publicado no site da BBC Brasil.
Mendes conta que a repercussão da denúncia na imprensa foi quase zero. “Saíram notas em colunas. Ninguém cobrou da Petrobras. Não sei por que o Francis nunca levou a denúncia para os poderosos Globo, Estadão e Jornal da Globo, onde trabalhava, além do Manhattan Connection, que tinham calibre muito mais grosso do que o GNT”.
Mendes tem outra pergunta sobre a indiferença dos colegas, com as exceções de sempre: “Seria o poder da Petrobras de silenciar a mídia com sua publicidade? Ou sua reputação na época estava acima de qualquer suspeita?”
Em novembro, lembra Lucas Mendes, Francis anunciou no mesmo programa transmitido de Nova York que estava sendo processado por diretores da Petrobras.
Diz o artigo de Mendes: “Repercussão na imprensa sobre o processo? Mínima. Saíram notas sobre os assombrosos US$ 100 milhões (que estariam sendo cobrados de indenização pelos diretores)”.
Uma resposta curta explica há muito tempo por que Francis fez a denúncia e não obteve nenhum apoio da empresa para a qual trabalhava e dos colegas poderosos do jornalismo, que o abandonaram até quando estava sendo processado.
Esta é a resposta, óbvia demais: ninguém fez nada para levar a denúncia de Francis adiante, como fizeram agora com a Lava-Jato, porque o governo era tucano.
Paulo Francis, que se esforçava para ser cada vez mais um jornalista de direita, foi abandonado na sarjeta pelos colegas desta mesma direita que agora se empenha em atacar corruptos (apenas do PT) na Lava-Jato, sem nunca tocar no fato de que ele, Francis, foi quem deflagrou tudo.
A direita, em qualquer área, sempre abandona os parceiros feridos, inclusive no jornalismo. Paulo Francis foi jogado na sarjeta e morreu infartado, acuado pelo processo dos diretores da Petrobras, porque temia perder todas as reservas que guardara para a velhice.
Os valentes do jornalismo 'investigativo' e opinativo que estão aí defendendo a Petrobrás se acovardaram em 1996, porque não lhes interessava contrariar o governo de Fernando Henrique Cardoso.
A origem da corrupção grossa na Petrobras é tucana. E o silêncio que a manteve intocada por muito tempo foi patrocinado pelo acobertamento do jornalismo tucano.

Moises Mendes é jornalista. Artigo retirado de sua página pessoal.

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